A chegada dos tiradores de cortiça (II)

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Trum! Trum! Trum!

Os estores de madeira estremeceram, antes mesmo de tão violenta investida. Levantei-me e retirei a trave de madeira que servia de fecho à janela, enquanto pestanejava freneticamente, tentando afastar o sono. Saí esbaforido, preparado para me deparar com um cenário de catástrofe e destruição provocado pela tempestade. Em vez disso, fui recebido por um rosto sorridente.

“Bom dia, vizinho!” Ali, à minha frente, estava o António, de cajado de pastor na mão, recebendo-me com uma expressão de puro deleite, ao mesmo tempo que examinava o meu aspecto terrivelmente desgrenhado. “Está na hora de lavrar a sua horta!”

Ainda sem perceber se estava no meio de um sonho ou de um pesadelo, corri para a porta, tentando vestir-me e pentear-me à pressa, quase tropeçando no chão de laje. Por detrás do António, o sol começava lentamente a nascer e a neblina matinal ia-se evaporando sobre os resplandecentes montes ondulados. O canto penetrante das aves ecoava no ar, como se pretendesse sublinhar os nossos desalinhados costumes urbanos.

O António inclinou-se e tocou-me no ombro com o seu cajado de madeira já deformado. “Já está na altura de começar a pensar na sua horta de Verão. Vá retirando as pedras e corte o resto das silvas, que eu já aí vou ter.” E com isto virou-se e começou a descer a colina, enquanto ia assobiando. O seu cão seguia-o, obediente, olhando-me brevemente de soslaio, enquanto desaparecia saltitando por entre as silvas. Ou seria mais um sorriso malicioso?

Siobhan apareceu por detrás de mim na cozinha. “O que é que o António queria?” perguntou, no meio de um bocejo e apertando o roupão de banho. “Acho que acabou de se oferecer para lavrar o nosso terreno.”, respondi-lhe, coçando a cabeça.

“Oh, tinha-me esquecido de te dizer!” lembrou-se Siobhan. “Ele apareceu por cá no outro dia, quando tu estavas na aldeia, e disse que nos lavrava a terra, tal como fazia para o anterior proprietário. Eu ia começar a tirar as pedras, mas….”

“Mas isso vai demorar anos”, murmurei. O vale tinha sido terrivelmente inundado pelas tempestades do Inverno passado que arrastaram consigo pedras de todos os tamanhos monte abaixo até àquela velha horta. Eu já tinha começado a desbastar as silvas que começavam a invadir o terreno agora baldio, mas ainda não tinha acabado.

“Bem, então é melhor começares. Eu vou tomar o pequeno-almoço.” Siobhan foi buscar uma carcaça de pão saloio caseiro e queijo de cabra fresco. A velha chaleira de cobre chiava e gemia à medida que a água ia aquecendo.

Sentei-me no terraço, ainda um pouco abalado por aquele início de dia tão inesperado. Lá do alto, ouvia-se um barulho incessante de pancadas leves vindo do velho sobreiro engelhado que ficava mesmo em frente ao terraço. Era um pica-pau. O mesmo que nos visitava todas as manhãs, à mesma hora, como se também viesse para o pequeno-almoço. Quando me levantei para levar os pratos para dentro, ele desvaneceu-se num clarão vermelho, fazendo acrobacias e rodopiando no ar até desaparecer floresta adentro.

“Até logo.” Acenei a Siobhan e iniciei o percurso sinuoso pela floresta. O calor do Verão que se aproximava desaparecia debaixo dos ramos de sobreiro carregados, nesta época, de folhas de um verde intenso. Por debaixo da densa camada de folhas que forrava o chão, a terra era de um magnífico castanho escuro que desmentia o tempo quente e seco da estação.

Por fim, cheguei ao jardim ermo no sopé do monte. O pequeno riacho que serpenteava o terreno transformara-se num fio de água, embora, do outro lado, a Primavera continuasse a florescer, criando um belo canteiro de relva mesmo à sua frente. Ao caminhar, os meus sentidos iam sendo invadidos por um inebriante aroma de hortelã e tomilho silvestre. Seguiu-se um ruidoso chapinhar causado por um bando indisciplinado de rãs que depressa mergulhou, à procura da segurança da água, pressentindo a proximidade da presença humana.

O sol ainda não ia bem alto para penetrar no jardim e sentia-se uma brisa fresca, enquanto tentava retirar as pedras e desviar os pedregulhos. Precisamente no momento em que tinha acabado de desbastar, com a ajuda da foice, as últimas silvas que ameaçavam estrangular o pessegueiro, a nespereira e os loureiros, apercebi-me da chegada de alguém pelo seu pigarrear. Voltei-me. Era o António. O seu chapéu levemente inclinado parecia realçar o extremo à vontade do seu sorriso.

“Posso?” Inquiriu, alegremente, trepando pelo portão sem aguardar resposta. “Veja lá se arranja este portão. Não quer que o meu burro venha para aqui roubar as suas nêsperas, pois não?”

E riu-se da sua própria piada. Eu já suspeitava que o António entrava no jardim para se abastecer daqueles frutos amarelados, semelhantes a ameixas, sobretudo depois de ter descoberto um trilho denunciador, de pequenas pegadas, em direcção à árvore de maior porte. O António nem sequer tentou disfarçar o seu apreço pelos meus frutos, mesmo depois de eu lhos ter indicado num dos passeios que demos juntos. Até me confessou, bastante solícito, quais os que davam os frutos mais saborosos. É claro que não lhe guardei rancor. Para ser franco, eu possuía muito mais do que aquilo que necessitava e o António nada tinha. Todavia, a tentativa de desvendar o mistério secreto do ladrão de nêsperas era agora o seu tema preferido de conversa. Por isso, um dia, após ter declarado solenemente que desconfiava que um dos seus burros podia ser o culpado, fez-me um portão para o jardim.

“Quando acabar de cortar as silvas, empilhe-as no meio do jardim para que, quando fizermos a fogueira, o fogo não alastre às árvores. Eu ajudo-o quando acabar.” Depois de ter dado as indicações, foi-se novamente embora, deixando um pequeno trilho de pegadas na terra fofa, exactamente igual àquele que encontrara à volta da nespereira.

Uma hora depois, as últimas silvas já tinham sido queimadas. Do outro lado da clareira, observei o cume do monte à minha frente, onde ficava a casa do António. Eu sabia que ele tinha estado a observar tudo a partir do seu ponto estratégico, e agora, que eu já tinha finalizado as minhas tarefas, deveria estar mesmo a aparecer. De facto, dez minutos depois, um suave ruído de chocalhos e murmúrios anunciou a chegada do António, do seu filho e das suas duas enormes vacas, castanho-avermelhadas, de nome Bonita e Vermelha. Ambas estavam aparelhadas numa única charrua.

Com tanto trabalho pela frente, as saudações foram breves e a charrua foi fixada com firmeza no local. A cada passagem, o solo duro tornava-se cada vez mais maleável e fértil. Já quase conseguia visualizar as colheitas que ali iriam crescer com a ajuda da água abundante da nascente e dos dois poços de pedra.

Carlos incitava as vacas, enquanto o António conduzia a charrua, virando-a habilmente e mudando de ângulo com a ajuda de uma corda em cada ponta, ao mesmo tempo que, ocasionalmente (embora eu não pudesse ter bem a certeza) me ia amaldiçoando por não ter retirado uma pedra enterrada aqui e ali.

“Pronto, já está!” O António e o Carlos não estavam apenas satisfeitos por terem finalmente completado a tarefa; estavam sobretudo deliciados com a minha expressão de total admiração.

“Mas isto é fantástico. Muito obrigado. Quanto é que vos devo?” O António e o Carlos entreolharam-se com uma expressão de gozo e depois encararam-me, rindo-se. “Somos vizinhos. Você faria o mesmo por nós. Não se esqueça mas é de arranjar e plantar os canteiros rapidamente. Olhe que é noite de lua cheia.”

Sem dizerem mais nada, desaparelharam as vacas e começaram a subir o monte em direcção à sua casa. De repente, o António parou e voltou-se “Então, a sua cortiça sempre vai ser extraída amanhã?”

“Não sei de nada. Eles realmente disseram que viriam num destes dias,” respondi. “Não, eles vêm é amanhã. Foi o que disseram na aldeia. Hoje estão a acabar o monte junto do vale. Amanhã bem cedinho pela aurora.” O António virou-se novamente e continuou a sua caminhada monte acima. Desde que para aqui mudei, já começava a estar habituado a ser o último a saber dos meus assuntos pessoais. E a levantar-me de madrugada.

Só que, desta vez, certamente que já iria estar preparado à espera deles.

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