A chegada dos tiradores de cortiça

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A deslumbrante Primavera alentejana, quando a época das chuvas se funde com o calor do Verão que se avizinha, tinha finalmente chegado. Esta é a altura do ano em que todas as cores possíveis e imaginárias que a natureza tem para oferecer parecem elevar bem alto a sua voz antes de serem novamente silenciadas pela aridez do Verão.

Os frutos espinhosos do medronheiro revelam-se no esplendor dos seus tons quentes, vermelho-alaranjados. As formidáveis flores brancas da esteva abrem-se revelando os seus centros cor de gema. A cor púrpura dos arbustos de alfazema insinua-se languidamente ao sabor da brisa fresca. As olaias lilases cor-de-vinho disputam abertamente a atenção com os molhos de flores amarelas suspensos nos galhos verdes brilhantes das acácias que revestem os caminhos rurais. Os prados explodem com as suas buglossas e primaveras, enquanto a urze e a giesta caminham lado a lado nas florestas.

Esta é também a estação do ano em que todas as casas da região são energicamente caiadas de branco, como se não quisessem ficar atrás de tamanho esplendor da paisagem, pelo que Siobhan lançava mãos à obra para realizar essa tarefa com a perícia e técnica adequadas. Pus-me a observar, enquanto ela ia deitando lascas de cal apagada para dentro de uma grande caçarola de barro, juntando água e esperando que fizesse efeito. Pouco depois tinha início o espectáculo. A caçarola começou a abanar ligeiramente, à medida que a mistura começava a borbulhar e a ferver. Então, de repente, levantou-se uma nuvem de vapor.

‘Isso é que daria uma bela partida,’ comentei. ‘Podíamos dizer às pessoas que se trata de uma forma de invocar os espíritos ancestrais para protegerem a nossa casa contra o mal, ou qualquer coisa do género.’

Siobhan olhou para mim com ar de desprezo.

‘Sinceramente, eu tenho mais que fazer do que andar para aí a pensar em formas de assustar os nossos amigos.’

Depois de tocar na superfície da caçarola para verificar se a mistura tinha arrefecido, Siobhan pegou no que parecia ser uma enorme escova de esfrega com cabo e pôs-se lentamente a caiar as grossas paredes de terra batida. À medida que aquela mistura aguada ia secando, transformava-se numa espessa camada de cal branca que protegia as paredes do sol inclemente do Verão que se avizinhava, assim como das chuvas dos meses do Outono e do Inverno.

Entretanto, decidi percorrer a pequena horta que criáramos na parte da frente da casa. Esta encontrava-se protegida por um pequeno muro em pedra que a abrigava das nortadas frias. Tínhamos feito uma série de canteiros elevados com algumas telhas velhas partidas que tínhamos substituído, enchendo-os com o estrume que conseguíramos resgatar de um velho casebre de pedra no sopé da colina, onde o antigo proprietário guardava o seu burro nos seus últimos anos de vida.

Aquilo que, à primeira vista, parecia ser um árduo trabalho, enquanto íamos enchendo sucessivamente os incontáveis carrinhos de mão e, em seguida, os empurrávamos monte acima ao longo de um percurso impiedoso, assumia-se agora como tempo e suor bem gastos, à medida que assistíamos ao crescimento saudável e viçoso dos tomateiros sobre aquela superfície húmida, outrora feita de solo pobre e estéril.

‘Fica bem, não fica?’ perguntou Siobhan, que tinha acabado de pousar a escova para ir ter comigo à horta.

‘Os nossos vizinhos até nos deram os parabéns quando nos vieram visitar ontem, durante a tua ausência. Trouxeram-nos sementes de coentro para nós semearmos. E disseram que era noite de lua cheia.’

Aos poucos, fomos aprendendo a seguir à letra os conselhos dos nossos vizinhos, sobre as épocas e os métodos de plantação. No entanto, por muito estranho que pareça, a verdade é que eles tinham sempre razão – algo que era constantemente reforçado sempre que pretendíamos fazer as coisas à nossa maneira.

‘Esta parece ser uma boa altura para experimentar a nossa bomba nova na horta, não achas?’ sugeri.

No fim-de-semana anterior tínhamos acabado de instalar uma nova bomba movida a energia solar no nosso poço, no vale. E esta já tinha dado provas de ser o melhor investimento alguma vez feito por nós, nem que fosse pelos olhares de admiração que tínhamos recebido dos nossos vizinhos quando liguei o interruptor atrás da porta da cozinha e, segundos depois, a água já jorrava dos canos que eu tinha instalado pela floresta.

Ainda hoje tenho os terríveis arranhões resultantes do facto de ter arrastado os 250 metros de tubo de plástico através do espesso mato, embora tudo isso tivesse sido atenuado pelas reacções do António e da Maria que (tal como os nossos vizinhos mais velhos) ainda traziam diariamente água potável monte acima, desde o vale, em cântaros transportadas ao lombo de mulas e burros.

Era altura de ir buscar o correio. Aqui, nestes montes, não há entregas porta a porta, pelo que o correio é deixado num dos cafés da aldeia. Conduzindo ao longo da nova estrada que leva à aldeia, reparei que havia um ninho de cegonhas em cima de cada um dos postes de electricidade que ladeavam o caminho. Em cada ninho, uma mãe orgulhosa alimentava a sua cria esfomeada. Reparei ainda num casal de bútios pousados sobre as linhas entre os postes, enquanto junto do rio, que corria lá em baixo, uma garça-real cinzenta trilhava cuidadosamente o seu caminho por entre os canaviais.

A aldeia fervilhava de conversas. Aparentemente, um grande corticeiro encontrava -se na região, a oferecer bom dinheiro pela cortiça e à procura de descortiçadores profissionais para trabalhar com ele. Esta era a altura do ano em que toda a comunidade parecia renascer e se podia ganhar uma boa quantia para complementar os magros salários ganhos nas restantes actividades agrícolas.

Nem de propósito, estava eu de regresso a casa quando fui cumprimentado por dois homens que me esperavam no caminho. Contaram-me que o meu vizinho lhes tinha dito que algumas das minhas árvores estavam prontas para serem descortiçadas precisamente este ano, uma vez que a última cortiça tinha sido extraída há nove anos atrás. Segundo a legislação governamental, não é permitido o descortiçamento por um período de nove anos a contar da última extracção. O ano do último descortiçamento ainda lá estava, inscrito a tinta branca sobre a superfície das árvores.

Eles até já tinham garantido o negócio com o António e a Maria relativamente ao seu próximo descortiçamento, e queriam ver o nosso montado de sobro. Olhei para eles. Era, sem dúvida, um par algo bizarro, isto é, um jovem italiano e um alentejano mais velho, ligeiramente entroncado. Para acentuar ainda mais o contraste, este último tinha um telemóvel preso ao cinto.

‘Claro. Vamos lá então dar uma vista de olhos’, propus.

Descemos o carreiro através de um prado, na extremidade do qual havia um grande olival que dava para o bosque. O nosso hectare e meio de montado de sobro resplandecia de cores e aromas, e ecoava com o zumbido das abelhas na sua incessante luta pelo pólen, por entre a alfazema abundante e as roseiras bravas. Saímos do carreiro e entrámos no espesso arvoredo, subindo e descendo o monte para que eles pudessem apreciar as árvores uma a uma, e ver qual a quantidade de cortiça que podia ser extraída.

O jovem italiano ficou logo sem fôlego, mas o indivíduo mais velho depressa desapareceu da nossa vista, à medida que ia verificando energicamente a idade e maturidade das árvores, algo apenas detectável pelo som do roçar dos arbustos e dos seus comentários ocasionais do género ‘Esta é muito nova’ e ‘Esta é que é boa’.

Por fim, lá acabou por aparecer. ‘Cerca de setenta ‘arrobas”, afirmou ele, virando-se para o italiano.

‘OK, vamos discutir preços,’ disse o italiano, olhando para mim. Voltámos a subir em direcção à casa e sentámo-nos à volta da mesa no terraço. Era altura de negociar. Não fazia a mais pequena ideia de quais seriam os preços, e muito menos o que era uma ‘arroba’, mas eles, pacientemente, lá acabaram por me explicar todo o processo, os diferentes graus e classificações da cortiça, quanto tempo é que demoraria a extrair a cortiça, quanto tempo é que ela deveria ficar a secar antes de ser pesada, etc.

Explicaram-me ainda que uma ‘arroba’ era uma medida tradicional de peso introduzida pelos mouros. Em termos modernos, era o equivalente a 15 quilos.

‘Aqui está um depósito. Voltamos dentro de um mês para começar o descortiçamento e pagaremos a diferença, de acordo com o peso total.’

Olhei para o cheque. Tratava-se de uma bela quantia.

Os dois levantaram-se para sair. ‘A propósito,’ disse o mais novo, virando-se para mim.

‘Aquela parcela de terreno acolá está à venda?’ perguntou, apontando para o monte seguinte.

‘Penso que sim,’ retorqui. ‘Acho que sei quem é o proprietário. Está interessado em comprá-la?’ perguntei.

O monte tinha sido utilizado para cultivar trigo, mas já estava abandonado há muito tempo. A vegetação já cobria totalmente o seu cume, embora se vissem alguns sobreiros e medronheiros sobressaindo rente ao chão.

‘Gostaria de comprar algo parecido com aquilo ali e plantar um novo sobrado para os meus netos,’ respondeu. Olhei para ele de forma intrigada. Não parecia suficientemente velho para ser avô. De facto, devíamos ter mais ou menos a mesma idade. Ele virou-se e detectou o meu olhar espantado.

‘Acabo de ser pai pela primeira vez. Há dois meses’, sorriu, e tirou da carteira uma fotografia, já bastante marcada com dedadas, do seu bebé.

Todos nós ficámos embevecidos com a fotografia. Pessoalmente, até fiquei bastante aliviado – sinceramente, já começava a ficar preocupado com o facto de alguém querer comprar 10 hectares de terra só para semear toda uma nova plantação de eucaliptos na sua encosta. As empresas do sector madeireiro andavam constantemente à procura de novas terras na região para arrendarem, de forma a poderem satisfazer a procura crescente de pasta de papel das indústrias do norte da Europa.

A invasão destas monoculturas estranhas e alienígenas trouxe consigo toda uma praga de incêndios florestais para a região e, de igual forma, tinha esgotado de tal forma o lençol freático que, entretanto, os poços, nascentes e até mesmo riachos acabaram por secar. Para agravar ainda mais o problema, as chuvas de Inverno tinham destruído tudo o que restava da fertilidade do solo.

‘O meu pai, o meu avô e o meu bisavô estiveram sempre ligados à cortiça,’ explicou. ‘A minha família forneceu sempre os produtores de vinho italianos. Para além disso, plantar árvores é a coisa mais importante que um homem pode fazer na vida.’

Ele pestanejou, emocionado, colocando a fotografia de novo na carteira e limpando uma lágrima que, entretanto, lhe tinha escapado. ‘Para além de ter filhos, é claro.’

(continua)

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