Entrevisa a Daniel Michalik

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Entrevisa a Daniel Michalik

Designer americano é um entusiasta da cortiça

De Nova Iorque para o mundo, Daniel Michalik criou linha de móveis em cortiça e tem sido um forte apoiante do InterCork.  Ainda busca fábricas que produzam a sua mobília a melhores preços.

Que tipo de influências, experiências ou objectos inspiram as suas criações?
A cortiça em si, como material, é aquilo que mais me influencia. Fui treinado numa universidade muito tradicional, que apostava no desenvolvimento de trabalhos manuais, onde aprendi os métodos de design de mobília com madeira. Quando descobri a cortiça, vi que era capaz de criar formas e estruturas impossíveis de ser criadas com a madeira, mas que poderiam ser criadas usando a mesma tecnologia e técnicas semelhantes. Por isso, quando desenho uma peça nova começo no workshop, experimentando com bocados de cortiça e vendo aquilo que pode ser feito e que nunca ninguém viu antes.

Como é que conheceu a cortiça e se interessou por este material?
Eu andava à procura de materiais “alternativos” para usar numa cadeira e a cortiça estava na minha lista de possibilidades. Encontrei um fornecedor nos EUA (Estados Unidos da América) que estava a tentar vender uma enorme quantidade de blocos e folhas velhas a um preço muito, muito, reduzido e, por isso, comprei-o. Comprar uma quantidade grande deu-me a liberdade de experimentar à vontade, conforme referi anteriormente. Isto permitiu-me desenvolver novas técnicas de produção e criar novas tipologias de produto.

Porque é que trabalha exclusivamente com a cortiça? Ou será que trabalha também com outros materiais?
Eu trabalho com outros materiais, principalmente madeira. Continuo a adorar trabalhar com madeira e a minha nova linha de cadeiras explora a intersecção (literalmente) dos dois materiais e como estes se afectam um ao outro.

Como reagem, hoje em dia, as pessoas às suas obras de cortiça, em comparação com o início da sua carreira?
Apenas uma clarificação: aquilo que eu faço não é arte. Eu desenho e crio mobília e outros produtos. Parece haver menos surpresa do que havia há cinco anos quando comecei. Quando apresentei o meu trabalho no Salone Internazionale del Mobile (Salão Internacional do Móvel) em Milão, os visitantes estavam espantados com o próprio conceito de utilizar cortiça como principal material para mobília. Mas, hoje, este material é mais conhecido e mais corrente, mas isso dá-me a oportunidade de trabalhar um bocado mais, criar designs com a sua própria identidade e diferentes dos outros produtos de cortiça no mercado.

O que significa para o seu trabalho a versatilidade da cortiça em termos de forma e função?
Significa quase tudo. Quase todos os meus produtos são fundados no potencial da cortiça para actuar de uma forma que mais nenhum material consegue, e como nunca actuou antes. Eu fico fascinado com o equilíbrio entre flexibilidade e estrutura. Costumo jogar com a tendência natural da cortiça para se dobrar e flexionar, desenhando mecanismos que se movem com o corpo mas que nunca chegam a um ponto de ruptura.

Quais são os pontos positivos e negativos de trabalhar com a cortiça como material (possibilidades, limitações em termos de cor, por exemplo)?
Positivo: No geral, eu vejo a cortiça não só como um material ‘novo’, mas também como um modelo de material com lições para nos ensinar acerca do design, utilização de material e novas tipologias de forma.
Negativo: Sim, a dificuldade de adicionar cor tem sido um desafio. Pessoalmente, eu adoro a paleta natural e subtil da cortiça, mas estou a desenhar produtos para um mercado e, embora a época do chamativo e caro tenha passado, infelizmente, as pessoas continuam atraídas por objectos que sejam coloridos e brilhantes, especialmente se estão a gastar muito dinheiro neles. O que me leva a outro ponto negativo – obstáculos de custo e produção. A cortiça é um material muito caro, por ser um recurso natural e tirado à mão. Gostava que os meus produtos não tivessem que ser tão caros.
Para além disso, a maioria das fábricas que fazem mobília estão hesitantes em utilizar cortiça em produção massiva, porque é um material desconhecido. Especialmente em Portugal, as fábricas que trabalham com cortiça não costumam fabricar mobília e, por isso, não conseguem produzir os meus artigos a um bom preço. Pelo que ainda estou à procura da fábrica certa. Consequentemente, grande parte daquilo que eu desenho é fabricada no meu próprio estúdio.

 ‘Sustentabilidade’ é um dos termos mais usados nos últimos anos. Porque é que consideraria a cortiça como um material sustentável no verdadeiro sentido da palavra?
A sustentabilidade remete para um sistema que se pode suportar por inteiro indefinidamente e sem criar danos ambientais, éticos ou outros. A cortiça é sustentável essencialmente devido à natureza inerente do material e da sua indústria – regenera-se a cada 10 anos, é reciclável, as florestas absorvem grandes quantidades de CO2 da atmosfera enquanto suportam habitats e ecossistemas importantes, a agricultura mantém as técnicas tradicionais vivas e os sistemas fabris produzem apenas pequenas quantidades de resíduos.
Para além disso, o material é saudável – não é tóxico, quando feito com ligamentos adequados, é resistente a fungos, micróbios e bolor, também é resistente à água e flutua.

Já alguma vez criou um design para pavimento de cortiça?
Não, mas gostava muito e estou aberto a convites!

A sua homenagem à cortiça numa frase?
A cortiça é um material que nos pode ensinar a olhar para outros materiais, e a forma como os utilizamos, de uma forma nova e mais saudável.

De Brooklin para o mundo

Daniel Michalik é um designer de mobiliário em cortiça, que trabalha na sua loja de Brooklyn, em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América. Vende essencialmente nos EUA e na Europa e realça que os objectos que produz são produto do seu “amor pela origem e contexto deste material tão especial que é a cortiça”. Salienta os séculos de tradições artesanais que são património das regiões europeias da cortiça, como Portugal.

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Yemi AwosileJosé Luis Peixoto