Entrevista a Susana Esteban

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Entrevista a Susana Esteban

À conquista do crasto

Galega por nascimento, tornou-se duriense por paixão. Hoje, a enóloga Susana Esteban é já uma Douro Girl, assinando alguns dos mais famosos vinhos da região. Fiel à cortiça, Susana diz que a cortiça “já faz parte dos valores subjacentes a qualquer grande vinho: tradição, longevidade, uma estética apurada do rótulo e da embalagem e até o ritual de abertura.”

O céu está escuro, carregado, cheira a chuva forte e a terra molhada, mas basta um breve raio de sol escapar por entre duas nuvens para que as vinhas ganhem uma outra luz. Os tons ocres e avermelhados de um Outubro algo tempestuoso que chega ao fim pincelam de cor os muitos socalcos e patamares que envolvem os 73 hectares Quinta do Crasto, onde há pouco mais de uma década se começou a produzir alguns dos grandes vinhos tintos que tanta fama e prestígio trouxeram ao Douro.

“Estas são as nossas melhores vinhas”, diz Susana Esteban, 37 anos, a enóloga residente, enquanto aponta para os dois talhões de vinha velha que cobrem a encosta íngreme e inclinada e que, quase a pique, resvala até ao rio. “Esta é a vinha da Ponte e aquela a vinha Maria Teresa. Ambas têm mais de 90 anos, uma grande mistura de todas as castas da região e dão nome aos dois dos nossos vinhos de “monovinhas”, um conceito semelhante ao de monocastas (varietais) só que aplicado às vinhas,” acrescenta, explicando também que, apesar de em todas as vindimas vinificarem a partir destas uvas, só engarrafam o vinho nos melhores anos, a fim de manter o alto nível de excelência com que habituaram o mercado. Por isso, muito embora o primeiro Quinta do Crasto Douro, o vinho mais corrente da propriedade, tenha sido lançado em 1994 – uma pequena produção 40.000 mil garrafas que, doze anos depois, cresceu para as 180 mil – , os primeiros Vinha da Ponte e  Maria Teresa só foram lançados em 1998.

Seguiram-se as colheitas de 2000, 2003 e 2004 para o primeiro, e as de 2001 e 2003 para o segundo, sempre produções escassas (cerca de cinco mil garrafas, pois as vinhas velhas têm pouca produtividade) para um mercado apreciador que pede sempre mais, mas que alcançaram quase de imediato o reconhecimento internacional (o Vinha da Ponte 2000 e o 2004 receberam 95 pontos na célebre revista americana Wine Spectator).

“Todos os anos fazemos o nosso Douro, o Reserva que passa ano e meio em madeira e os Portos Vintage e LBV. Mas até agora houve apenas um único ano – o de 2003 – em que também engarrafámos os nossos quatro vinhos topo de gama: estes dois “monovinhas” e os varietais Tinta Roriz e Touriga Nacional, este último o primeiro tinto português a atingir os 96 pontos na Wine Spectator (colheita de 2001) ”, refere com orgulho.

Uma galega nos Douro Boys

Susana Esteban, uma galega oriunda de Tui, pertence ao restrito grupo dos Douro Boys, um conjunto de jovens enólogos que têm protagonizado o que muitos especialistas apelidaram de uma “revolução tranquila” na enologia duriense, criando tintos de excelência numa região até há bem pouco tempo conhecida apenas pelo vinho do Porto. Licenciada em Química e com um mestrado em Enologia tirado em Rioja, Susana optou, sem qualquer hesitação, pelo Douro quando, concluídos os estudos, ganhou uma bolsa internacional para fazer um estágio num país da União Europeia. “Quase todos os meus colegas foram para França ou para a Alemanha, mas eu tinha uma enorme curiosidade em saber como é que se fazia o vinho do Porto. Além disso, tinha cá estado numa viagem de estudo e adorei o lugar.” Começou por estagiar na Sandeman e esteve três anos na Quinta do Côtto, de Miguel Champalimaud, onde a família Roquette, os proprietários do Crasto, a foram buscar para fazer a vindima de 2002.

Embora viva em Vila Real é aqui que trabalha, neste “crasto” (do latim castrum que significa monte fortificado ou fortaleza) empoleirado no alto de uma colina, com uma vista deslumbrante sobre o vale do Douro e o seu rio, situado a cerca de meia-hora do Pinhão e com uma história que remonta ao século XVII. Durante anos os seus vinhedos produziram uvas e vinhos sem marca que eram vendidos às grandes casas de vinho do Porto, até que a actual proprietária, Leonor Roquette, a herda do seu avô Constantino de Almeida (conhecido pelo seu célebre brandy Constantino, “a fama que vem de longe”). Com o marido Jorge e os dois filhos, Tomás (ligado à produção) e Miguel (à comercialização e ao marketing) criam uma empresa familiar de sucesso, onde a qualidade se sobrepõe sempre à quantidade, mas que já produz anualmente cerca de 450 mil garrafas, 70% das quais são exportadas para mercados como o Brasil, os EUA, o Canadá ou a Inglaterra. O investimento em equipamentos e tecnologia tem vindo a crescer progressivamente e a última grande conquista foi a surpreendente cave (750m2) construída de raiz num dos socalcos da quinta, sobranceira ao rio e onde, pedra a pedra, como se de um gigantesco puzzle se tratasse, a gentes da terra ergueram as paredes totalmente revestidas a xisto da região. E porque é aqui que estagiam em barricas de carvalho francês todas as grandes marcas do Crasto (à excepção do Douro), cobriu-se o tecto de relva, transformando-o no jardim que dá acesso a casa, construída num socalco superior. “Como é continuamente regado, mantém a temperatura da cave sempre fresca e está tão bem integrada na paisagem que, apesar do tamanho, não destoa”, explica Susana Esteban. Aliás, é também aqui que estagiou o Xisto 2003, a mais recente estrela da casa e que resulta de uma parceria enológica e comercial muitíssimo bem sucedida entre a família Roquette e Jean-Michel Cazes, um bordalês casado com uma portuguesa e proprietário do prestigiado Châteaux Lynch-Bages.

Da colaboração entre os respectivos enólogos – Susana Esteban e Daniel Llose, um francês de origem catalã responsável pela direcção técnica do Grupo Axa Millésimes que possuiu adegas por toda a Europa –, surgiu o Xisto, um DOC feito a partir de uvas do Douro (mas não do Crasto), criteriosamente seleccionadas para esse fim, vinificado na adega da quinta mas trabalhado de forma diferente, segundo o método bordalês.

“O Xisto é um vinho com a elegância típica dos vinhos de Bordéus mas com o aroma e as características dos vinhos do Douro, embora seja completamente diferente dos Douros tradicionais. É muito mais redondo na boca e as pessoas adoram,” acrescenta Susana, sem esconder o entusiasmo que este projecto lhe provoca. E conta que o sucesso foi tal, que chegaram a reter parte da produção das 30 mil garrafas lançadas em Março último, para que o vinho não desaparecesse imediatamente no mercado nacional e internacional.

Quinta do Crasto

Xisto é vedado com rolha de cortiça natural

Tal como todos os outros vinhos produzidos no Crasto, também o Xisto é vedado com uma rolha de cortiça natural. “Como enóloga gosto de utilizar em vinhos de qualidade como os nossos, este tipo de rolhas, já que fazem parte dos valores subjacentes a qualquer grande vinho: tradição, longevidade, uma estética apurada do rótulo e da embalagem e até o ritual de abertura”, confessa Susana, para logo em seguida acrescentar “que, pessoalmente, não gosto de vedantes sintéticos”.

“Acho que um vedante de plástico aparenta ser uma coisa que não é. Por outro lado, a mim não me incomoda nada abrir uma garrafa de vinhos de consumo rápido vedados com screwcaps (cápsulas de rosca em alumínio). Mas o certo é que ainda não há nem conhecimento suficiente, nem historial para comparar vinhos engarrafados com estes dois vedantes alternativos, pois todos os estudos que existem são ainda muito recentes. Já com a cortiça é completamente diferente, uma que podemos prever a evolução do vinho.” E exemplifica: “Tanto o Vinha da Ponte como o Maria Teresa de 2003 que já estão no mercado e que foram engarrafados com rolhas de cortiça natural, podem perfeitamente ser consumidos daqui a dez ou mais anos.” Susana Esteban faz uma pausa e sorri, confiante: ”Até porque provei recentemente o Maria Teresa 98 e o Vinha da Ponte 2000 e estão simplesmente fantásticos.”

Texto: Leonor Vaz Pinto
leonorvazpinto@gmail.com
Fotos: Victor Machado
vmachado@iol.pt
Ano: 2006

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