Entrevista José Luís Peixoto

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Entrevista José Luís Peixoto

A cortiça é uma das nossas riquezas mais importantes — José Luis Peixoto, escritor

Sendo natural de Galveias, qual a sua ligação com a cortiça? Há algum negócio na família relacionado com esta matéria-prima?
Não tenho ligações familiares com cortiça.

Algumas “marcas” que a cortiça/sobreiro lhe tenham deixado na sua infância/adolescência? Alguma experiência/história que queira revelar?
Tenho inúmeras memórias da infância e da adolescência ligadas à cortiça e ao sobreiro. Costumava passar muito tempo a brincar no campo e, durante essas aventuras, os sobreiros eram convites a trepar. Ao mesmo tempo, tinha muito contacto com as pessoas que trabalhavam na cortiça, que saíam cedo e regressavam ao final da tarde, sentados nos reboques de tractores. Nos meses do Verão, pouco depois de chegarem do trabalho, essas pessoas enchiam as mercearias. Mais tarde, ao início do serão, acabados de tomar banho, os homens ficavam sentados à porta. Não ficavam até muito tarde porque tinham de acordar cedo na manhã seguinte. O meu padrinho tinha sempre bolotas nos bolsos. Dava-me algumas. Roía-as cruas ou assava-as no lume.

Já utilizou nos seus livros alguma referência ao montado, sobreiro, cortiça? Em qual?
Sim, já utilizei essa referência directa em vários livros meus. Nomeadamente no livro de contos “Cal” ou nos romances “Nenhum Olhar” e “Livro”. Tratam-se de livros, cuja acção se localiza no Alentejo, como tal não poderia deixar de fora as imagens que conheço melhor e, entre essas, está a apanha da cortiça, os homens empoleirados em sobreiros, ou as enormes pilhas de pranchas de cortiça.

Como foi a experiência de apadrinhar um sobreiro?
À partida, tenho sempre muita receptividade perante convites que me desafiem e me façam sair das minhas expectativas. Se esses convites chegam aliados a algo que me é tão caro como o sobreiro, ainda mais cativante se torna. Foi um momento que encerra uma promessa transcendente de futuro. É impressionante pensar na duração daquele gesto simples e em tudo o que aquele sobreiro ainda irá assistir.

Qual a sua opinião sobre a iniciativa da AR em elevar o Sobreiro a símbolo nacional?
Os símbolos têm muita importância. A comunicação utiliza-os como matéria essencial e, por sua vez, é a comunicação que nos constrói e nos leva às decisões, à acção. O sobreiro é uma imagem poderosa de resistência e de força. Essas são características essenciais do país em que acredito.

Como alentejano e português, qual é a sua visão sobre a cortiça?
Não tenho dúvidas de que se trata de uma das nossas riquezas mais importantes. No contexto internacional, não somos um país de grandes dimensões geográficas e, mesmo assim, temos a felicidade de ser produtores de uma matéria própria e, claro, trata-se de uma matéria com características extraordinárias como é o caso da cortiça.

Que mensagem deixaria aos portugueses sobre esta matéria?
Creio que é muito importante que se aproveite algum do tempo de que dispomos para celebrar aquilo que merece. Esse tempo nunca será desperdiçado porque relembrarmos aquilo que possuímos é contribuir para uma consciência mais profunda daquilo que somos. Ao mesmo tempo, essa é uma consciência positiva, optimista, criadora de esperança – um dos sentimentos de que mais precisamos neste momento da nossa vida colectiva.

Perfil
Nasceu a 4 de Setembro de 1974 em Galveias, Ponte de Sor. É licenciado em Línguas e Literaturas Modernas (Inglês e Alemão) pela Universidade Nova de Lisboa. A sua obra ficcional e poética figura em dezenas de antologias traduzidas num vasto número de idiomas e estudada em diversas universidades nacionais e estrangeiras. Em 2001, recebeu o Prémio Literário José Saramago com o romance Nenhum Olhar, que foi incluído na lista do Financial Times dos melhores livros publicados em Inglaterra no ano de 2007, tendo também sido incluído no programa Discover Great New Writers das livrarias norte-americanas Barnes & Noble. O seu romance Cemitério de Pianos recebeu o Prémio Cálamo Otra Mirada, atribuído ao melhor romance estrangeiro publicado em Espanha em 2007. Em 2008, recebeu o Prémio de Poesia Daniel Faria com o livro Gaveta de Papéis. Os seus romances estão publicados na Finlândia, Holanda, no Brasil, nos Estados Unidos, entre outros países, estando traduzidos num total de vinte idiomas.

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Daniel MichalikFrederico Martins