Viagem do Alentejo

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“Au!”, gritei de dor, enquanto a pick-up mergulhava violentamente em mais uma autêntica cratera lunar, lançando-me em cheio contra um ramo de sobreiro situado a baixa altura.

“Depressa!”, berrou Siobhan, sem se preocupar minimamente com o meu estado. “Agarra a bananeira … vai cair!”

Não era assim que havia imaginado o início da minha vida nova. Quando, há uns 3 meses atrás, partira de Londres, imaginava-me a observar a beleza circundante; um cenário com um maravilhoso pôr de sol dourado derretendo-se sobre os montes acidentados, um copo de tinto alentejano na mão.

Em vez disso, aqui estava eu a viajar na caixa da pick-up do meu novo vizinho, incontrolavelmente sacudido a cada buraco da pista, projectado sobre os sacos de estrume de cavalo que me amorteciam, tentando desesperadamente agarrar uma mão cheia de pequenas árvores de fruto variadas, aquelas que haveriam de ser as pioneiras do nosso pomar, e segurando com um só pé a mochila que continha todos os nossos pertences.

Era tudo o que havíamos conseguido salvar do jipe alugado em que tínhamos partido de Lisboa cedo nesse dia – um jipe que neste momento se afundava num lodaçal, descendo lentamente até às mais sombrias profundezas, e levando consigo as últimas bolhas de uma visão idílica da nossa triunfante chegada aqui, a terra da cortiça.

Finalmente, após uma última e penosa curva, a carrinha imobilizou-se com um solavanco, e o motor silenciou-se. Desci cautelosamente pela traseira do veículo, e olhei em volta, massajando lentamente as costas doridas.

Tínhamos chegado. Esta pequena casa tradicional, situada bem no cimo de um monte rodeado de floresta a perder de vista, era a que tínhamos escolhido para nosso lar. Anos de esperança e sonhos – para não falar nas longas horas de trabalho extra – tinham sido vividos em função deste momento.

E o cenário que me esperava era ainda mais fantástico do que alguma vez poderia ter imaginado. A noite tinha caído, sobre o cume da montanha mais longínqua erguia-se uma lua cheia – uma lua majestosa, que com a sua luz revelava, com incrível pormenor, todos os contornos das árvores disformes que cobriam a paisagem.

Não se avistavam quaisquer luzes da cidade, nem se ouvia o ruído de fundo do trânsito nesta noite calma e serena. Apenas o inconfundível pio de um mocho-real, algures nas proximidades, interrompia um silêncio que era tão profundo como o mar. Isso e a tosse forçada do meu vizinho, que me perguntou se desejava retirar os meus eclécticos pertences do seu veículo.

Olhei para o António. Tinha ido buscar uma pequena lanterna, que me pareceu perfeitamente inútil, mas que ao luar me permitia distinguir um imenso clarão em redor da sua face. Estava visivelmente satisfeito com o meu deleite. Antes disto só havia estado com ele uma outra vez, quando me tinha perdido na floresta, duas semanas antes, juntamente com um jovem e bem-disposto agente imobiliário, e acabámos à sua porta para pedir indicações.

Em boa hora! Como quase todas as casas nesta região, possuía um forno de cozer pão em forma de cúpula situado no exterior da habitação, e no preciso momento em que chegávamos saía uma fornada de pãezinhos quentes e tradicional pão alentejano, transportados sobre uma enorme espátula de madeira.

“Então vocês são os novos vizinhos?”, perguntou.

“Na verdade, ainda nem vimos o local”, respondi.

Ele apontou na direcção do monte para lá do vale. “É já ali.”

Esforcei-me para descobrir o local para onde apontava, mas tudo o que conseguia ver era floresta densa. Aparentemente, nenhuma casa.

“Hão-de vir para cá morar – aposto”, acrescentou, com um largo e atrevido sorriso que parecia uma característica permanente nele.

António tinha perto de 70 anos e morava com a mulher e o filho numa casa comprida, de formato triangular. As paredes em adobe ou terra batida, com meio metro de espessura e caiadas, erguiam-se sólidas contra o intenso calor do sol. Vigas enormes colocadas a baixa altura exibiam um mosaico de azulejos de tonalidade creme. Pareciam existir cerca de doze tamanhos diferentes de azulejos. Vim a saber que tal se devia ao facto de aproximadamente doze homens terem participado na árdua tarefa de moldar os azulejos nas suas coxas. Como as coxas de cada homem são diferentes, assim resultaram também os azulejos.

Ao lado da casa podiam ver-se várias pilhas de cortiça, todas elas impecavelmente dispostas. A maior delas teria aproximadamente 2 metros de altura, 3 metros de profundidade e 15 metros de comprimento. Era como uma colmeia gigante a três dimensões, um puzzle em que cada secção de cortiça se encaixava perfeitamente nas que a rodeavam. Tratava-se de material de primeiríssima qualidade, o mais bem pago pelos compradores de cortiça, por isso todo o esforço era pouco para assegurar que era mantido nas condições ideais enquanto secava antes de ser processado. Era daqui que provinha o principal sustento da família, e António – como todos os outros produtores de cortiça da região – supervisionava de perto os descortiçadores que vinham “despir” as suas árvores, certificando-se de que nenhuma saía danificada.

Junto a esta pilha encontrava-se uma outra, em forma de pirâmide e bastante mais pequena. Aí a cortiça era mais granulada, menos uniforme. Estes são os “calços”, a cortiça retirada da base do tronco, e que – explicou António pacientemente – era sempre retirada da árvore e conservada em separado, para ser utilizada em isolamentos, pavimentos, etc. A cortiça de melhor qualidade é canalizada para a produção de rolhas destinadas aos melhores vinhos de todo o mundo.

Atrás, encontrava-se uma terceira pilha, também em pirâmide. Era cortiça virgem, disse-nos António. “Provém das árvores mais jovens.”

“De que idade?”, perguntei.

“Ah, árvores com apenas 25 anos… por aí.”

Mostrou-nos então os sobreiros “jovens” que brotavam por entre os enormes troncos retorcidos encosta abaixo.

“Alguns fui eu mesmo que plantei; alguns são filhos dos maiores. São para o meu neto”, acrescentou, piscando o olho na direcção do filho, que – tanto quanto eu sabia – era ainda solteiro.

“Por estas bandas, se plantarmos para nós, plantamos vinha. Se plantarmos para os nossos filhos, plantamos oliveiras. Mas se plantarmos para os nossos netos, plantamos sobreiros.”

Olhei-o com atenção. Estava realmente a falar a sério. E o que dissera pareceu-me fazer todo o sentido.

“Então aqueles sobreiros ali, aqueles de que retira a maioria da cortiça, que idade têm?”, perguntei.

“Esses foram plantados pelo meu av”. Têm entre 80 e 120 anos.”

Anui com a cabeça. Tinha acabado de aprender uma lição importante. Anteriormente nada sabia sobre sobreiros, exceptuando o facto de serem bonitos. Mas para António e a sua família, eles eram toda a sua vida.

Despedimo-nos e descemos titubeantemente encosta abaixo no jipe do agente imobiliário, um jipe outrora pertença do exército português, serpenteando por entre a floresta até vislumbrarmos uma abertura que assinalava o caminho que, segundo nos haviam garantido, nos haveria de conduzir monte acima, até à casa que viria a ser a nossa. Há muito que ninguém trilhava estes caminhos – ninguém, claro está, excepto o agente imobiliário, que aqui viera tirar a fotografia da casa que depois colocara no anúncio que viramos na sua montra.

O caminho estava agora coberto de enormes arbustos de esteva, cujos rebentos esguios brotavam energicamente por entre cada fenda existente na argila.

A casa encontrava-se abandonada há já algum tempo e a cal da parede exposta ao sol estava a descascar. Mas tudo isto deixou de ter importância assim que entrámos e fomos recebidos por uma enorme lareira com cerca de um metro de altura.

No interior da lareira encontrava-se uma solitária cadeira em madeira, feita à mão e com assento em tecido. Portadas em madeira cobriam as janelas; lajes frescas e uniformes revestiam o chão.

Na entrada principal havia um pequeno terraço, junto ao qual se encontrava um depósito para madeira coberto. Quando espreitei lá para dentro, verifiquei que também escondia a abertura do forno de cozer pão, bem como a espátula de madeira e outros utensílios, incluindo ferramentas de jardinagem como uma picareta própria para quebrar o duro solo argiloso.

Em frente à casa existia um jardim rodeado por um muro em pedra, que protegia o solo dos ventos e da chuva forte. No lado oposto, um bosque de oliveiras emergia entre as flores do campo, estendendo-se suavemente encosta abaixo até à floresta densa que encobria o fundo do vale.

Senti então um desejo incontrolável de partir à descoberta. Corri monte abaixo, quase caindo pelo caminho, até atingir a orla da floresta. Parei então e olhei para cima, na direcção da casa. Ficava praticamente tapada pelas oliveiras.

“Há aqui um caminho”, disse Siobhan, que tinha parado atrás de mim. Olhei, e efectivamente ali estava um carreiro estreito que começava precisamente do outro lado de uma pequena clareira junto ao limite da floresta.

“Vamos”, incitei, arrastando Siobhan pelo braço.

Afastámos os arbustos de esteva selvagem à nossa frente e fomos penetrando lentamente. À medida que avançávamos, os arbustos fechavam-se atrás de nós. Era como se tivéssemos entrado num outro mundo. Por cima de nós, ramos de grande espessura entrelaçavam-se em busca do céu, o seu cinzento escuro contrastando com o verde brilhante dos líquenes e das folhas jovens.

Arbusto após arbusto, flores e musgo cobriam integralmente o solo em todas as direcções. Pássaros esvoaçavam freneticamente em nosso redor, alertando os seus amigos e família para os novos intrusos. Orquídeas, cogumelos selvagens, alfazema, urze, giestas e medronheiros lutavam entre si pela supremacia, e pela nossa atenção.

Lentamente, descemos pelo carreiro até ao vale, onde encontrámos uma fonte natural que se transformava num curso de água que ladeava uma velha horta. Por detrás das silvas descobrimos dois poços, delimitados por pedras.

Estávamos já muito longe do topo do monte; de Londres nem se fala. O melífluo odor das nespereiras inebriava os nossos sentidos, conjuntamente com o zumbido das abelhas esfomeadas, que faziam das novas flores um verdadeiro festim. Pêras, maçãs, pêssegos, figos, loureiros e árvores de citrinos amontoavam-se em torno da abertura coberta de erva.

O agente imobiliário tinha entretanto vindo no nosso encalço.

“Então, o que acham?” Exibia um tal largo sorriso, que quase diríamos que ria. Sabia bem que nos tínhamos apaixonado por tudo – a casa, o monte, a floresta, o jardim, os vizinhos.

Procurei manter um ar sério. “Teremos de pensar, claro…”, balbuciei de forma hesitante. Não estava a ser convincente…

E assim foi, há duas semanas atrás. Agora, esta seria a nossa primeira noite na quinta, aqui no coração do Alentejo profundo. Mas tal como a nossa chegada, estava escrito que tudo haveria de ser bem diferente do que havíamos planeado.

(continua)

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