Vida selvagem e varinhas de condão

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O Sol de Fevereiro brilhava intensamente sobre nós enquanto tomávamos o caminho de regresso a casa por entre os montes. Tínhamos descido à vila para comprar alimentos, um fogão a gás de duas bocas e painéis solares, tendo o cuidado de deixar tempo suficiente para encontrarmos o caminho de volta antes de a noite cair.

À 154ª curva desta interminável estrada de montanha, travei bruscamente ao avistar algo que atravessava a estrada como uma flecha. Parecia maior de que um gato, mas com pernas curtas, como uma doninha, e possuía uma longa cauda com um tufo de pêlo na ponta.

As nossas descrições, provavelmente exageradas, foram recebidas com gargalhadas desconcertantes. No entanto, algumas semanas mais tarde solucionámos o mistério, ao ver no quadro de informações do parque natural algo parecido com o desenho de Siobhan. Era um saca-rabos, uma criatura curiosa mas muito comum nas florestas. E, de facto, voltámos a vê-los várias vezes nas semanas que se seguiram. Membro da família das suricatas, é frequente vê-los erguidos sobre as patas traseiras, observando-nos. No entanto, e até termos visto um de forma suficientemente nítida para o identificarmos, não tínhamos descartado a hipótese de tratar-se apenas de uma partida pregada por habitantes da aldeia.

O quadro de informações haveria também de solucionar um outro mistério, ainda mais enigmático, sobre uma outra criatura que connosco se havia cruzado por aquelas bandas. Tínhamo-la avistado ainda antes de ver pela primeira vez a nossa nova casa, enquanto nos arrastávamos alegremente na nossa pequena carrinha VW camper cor-de-laranja, ansiando por um repasto na praia para variar um pouco das nossas refeições enlatadas (e para que pudéssemos pelo menos gabar-nos perante os nossos amigos, em pleno mês de Janeiro, de estarmos ali). A chuva que caía forte teria, todavia, de ser eliminada da fotografia, e Siobhan, cabeça enterrada no mapa, murmurou então entre dentes, pouco convencida: “Sim , acho que a praia é por aqui”.

Então, como agora, uma criatura atravessara a estrada disparada, surpreendida pelos máximos da carrinha na escuridão da noite. Era grande de mais para ser um gato, mas movimentava-se como um gato. Não possuía praticamente cauda, mas aqueles olhos… Desapareceu num ápice por entre a vegetação junto à estrada, deixando-nos perplexos.

Nunca tinha visto nada assim. Agora, em frente ao quadro de informações, apercebi-me de que, embora fugazmente, tivéramos a sorte de ver um lince ibérico, o gato selvagem mais raro do mundo, a maior maravilha do montado. Aquilo de que não me apercebi na altura, foi que o seu poder sobre mim viria a ser tal, que haveria de dominar a minha vida, e que chegaríamos mesmo a escrever um livro sobre ele…

De regresso a casa em segurança após o nosso encontro com o saca-rabos, direccionámos os nossos painéis solares como verdadeiros profissionais e carregámos o telemóvel. Siobhan colocou a chaleira ao lume e ficou a ouvir música, enquanto eu saí para explorar as redondezas. No entanto, quando voltei a música estava muito mais alta e Siobhan encontrava-se à porta, ameaçadoramente com um tacho na mão. Vi a coisa feia para o meu lado, e na tentativa de a acalmar ergui de forma tentadora a garrafa de vinho que tinha posto a refrescar no poço nesse mesmo dia.

“AS COBRAS… NÃO… GOSTAM… DE VIBRAÇÕES!”, explicou aos berros, tentando sobrepor a sua voz à música. “NO FORNO DE COZER O PÃO… DÁ PARA ACREDITAR?… TRÊS ENQUANTO SAISTE… SIMPLESMENTE A APANHAR SOL LÁ…”

Baixou um pouco a música. Aliviado por me ver salvo do tacho, dirigi-me a ela. De repente, ela gritou e correu para trás, escada acima. A cobra tinha fugido pela abertura na traseira do forno ou – segundo Siobhan – lançara-se na direcção dos seus olhos.

Era a minha vez de bater com o tacho, desta feita para dissimular o meu riso. Siobhan abriu o vinho, tendo permanecido agitada durante o resto do dia. Seria, no entanto, ela a última a rir. Na manhã seguinte, estava eu no jardim entre a vegetação que começava a brotar, Siobhan apontou, atónita, para os meus pés. Sentindo algo a mover-se, olhei para baixo e vi uma cobra que se passeava sobre o meu pé. Trazia sandálias abertas e podia por isso sentir a pele macia da cobra deslizando sobre a minha.

“AAAARGH!” Dei um passo atrás, chutando a cobra com o pé, e lançando-a alguns centímetros no ar. Assim que aterrou, a cobra esgueirou-se apressadamente por entre os arbustos mais próximos, claramente perturbada por estar na presença de um maníaco capaz de jogar futebol com ela. Olhei para Siobhan, envergonhado. Estava perdida de riso. A partir desse momento, passei a levar mais a sério a minha tarefa de bater com os tachos.

Para grande tristeza nossa, tivemos de nos ausentar durante algumas semanas. Os nossos vizinhos prontificaram-se a regar os tomateiros e as alfaces ainda jovens durante a nossa ausência e gentilmente emprestaram-nos um antigo bidão para que deixássemos água em quantidade suficiente. A nossa bomba solar novinha em folha bombeou então a água do poço, permitindo encher todos os recipientes disponíveis. O veículo que utilizávamos era agora um motociclo de cabina rígida com três rodas, uma espécie de caixa em ferro ondulado montada sobre um triciclo motorizado, cujo motor soava como uma vespa enfurecida. No entanto, quando regressámos à aldeia algumas semanas depois, estava sem bateria. Tomámos então um táxi da aldeia até ao caminho mais próximo que virava para a floresta junto a nossa casa.

Uma vez retiradas as mochilas da mala, o motorista de táxi assegurou-nos que, não fora a estrada de terra batida estar tão enlameada, nos teria levado até à porta de casa. Arrancou depois a todo o gás. O silêncio a que já estávamos tão habituados, e pelo qual tínhamos ansiado nas últimas semanas, continuava lá. Era apenas quebrado por sons de animais, um canto de pássaro ali, chocalhos de gado acolá.

Atingindo o cume do primeiro monte, parámos junto à pilha de cortiça do nosso vizinho para ganhar fôlego. A beleza avassaladora dos montes cobertos de sobreiros revelou-se perante os nossos olhos, com as montanhas do Algarve de cor quase púrpura no horizonte. A cena tornava-se ainda mais impressionante, devido às ameaçadoras nuvens escuras que lhe serviam de moldura, e que se aproximavam rapidamente de nós.

“Anda, vamos antes que nos atinja”, incitei Siobhan, que tirava uma fotografia deste fantástico cenário.

No entanto, tivemos apenas tempo para colocar mais uma vez as mochilas às costas e as primeiras gotas de chuva começaram a cair. Acelerámos o passo, enquanto atrás de nós também o tilintar dos chocalhos aumentava de ritmo, com os animais a serem conduzidos aos seus abrigos. De nada valeu, todavia. Ficámos totalmente encharcados. Porém, e à medida que os nossos sentidos eram despertados pelo perfume da esteva e alfazema já em floração, isso não parecia importar. Pelo contrário, sentia-me estranhamente entusiasmado. “Vamos até ao nosso jardim no vale”, gritei a Siobhan, abafado pelo ribombar de mais um trovão.

Corremos ao longo da margem do riacho até ao jardim e pousámos as nossas mochilas por baixo de uma árvore. As árvores de fruto estavam agora em flor e carregadas de folhas. A nespereira, que se encontrava coberta de flor quando partíramos, estava agora carregada com os frutos cor de damasco. Enquanto me esticava para colher o primeiro fruto da minha quinta, senti os primeiros raios de Sol na cabeça. Transportando connosco a maior quantidade de fruta que nos era possível, encontrámos o caminho que nos conduzia por entre as nossas matas até casa.

Todavia, quando atingimos o limite da floresta de cortiça, onde os sobreiros davam lugar ao nosso bosque de oliveiras, tivemos outro choque. O que tinham os nossos vizinhos andado a fazer? A enorme figueira perante nós tinha sido escavada e o rebordo em pedra que rodeada as suas raízes parcialmente derrubado.

Mais acima encontrámos mais escavações em círculo. Por muito que tentássemos, não conseguíamos descobrir um padrão ou uma explicação. Os nossos vizinhos tinham meticulosamente utilizado até à última gota a água que havíamos deixado e a horta tinha crescido bem. O único outro sinal estranho eram dois sacos grandes em plástico, cuidadosamente pendurados no estendal, e que esvoaçavam ruidosamente ao vento.

Dois dias mais tarde avistei o António com o seu rebanho no sopé do monte. Era altura de resolver o mistério.

“Foi o javali!”, disse rindo, quando lhe contei a minha surpresa. “Andaram a escavar o vosso jardim. Os sacos devem afugentá-los”.

Tinham seguramente feito um óptimo trabalho a revolver o solo argiloso, e foi então que tive uma ideia brilhante. “Vou acabar de plantar o saco de 50 kg de batatas”, gritei energicamente para Siobhan, que se mostrava claramente perplexa perante a ausência de qualquer pá na minha mão. Os focinhos dos javalis fizeram um excelente trabalho. É o Homem e a Natureza em harmonia”.

Siobhan não pareceu totalmente convencida.

Apesar do nosso idílico isolamento, era tempo de nos ligarmos ao mundo exterior. Preenchemos os formulários no balcão da companhia dos telefones e alguns dias depois fomos surpreendidos por um discreto buzinar de um automóvel à nossa porta. Um homem vestido de ganga e óculos escuros encontrava-se encostado a um reluzente Renault 4 com o logotipo da empresa.

“É aqui que mora o Sr. Eduardo Gonçalves?”, perguntou, puxando de um cigarro e segurando um mapa na mão.

Sim, era ali, respondi.

“Vim só verificar onde viviam. É este o meu trabalho. Encontrar estes lugares”, explicou.

“Vou informar os engenheiros. Devem cá vir na próxima semana”.

Voltou a entrar no carro e arrancou. Um trabalho nada mau, pensei. E efectivamente, uma semana depois vimos chegar dois homens numa carrinha. Em vez de postes telegráficos e bobinas de cabos, todavia, traziam apenas uma pequena caixa e o que parecia uma varinha de condão.

“Só temos de alinhar isto com a antena ali no topo das montanhas”, disse um deles, apontando algures em direcção ao horizonte, onde, com dificuldade, conseguimos avistar um pequeno objecto pontiagudo. Em pouco mais de uma hora tinham terminado o serviço, deixando o nosso novo rádiofone devidamente instalado na parede por cima da porta principal.

Quase imediatamente após a partida dos técnicos, uma andorinha pousou sobre a “varinha”. Era a mesma que ainda não tinha desistido de reconstruir o seu ninho no interior da nossa casa. A varinha viria a tornar-se o seu local preferido de pouso e posto de vigia.

Os serões eram agora preenchidos com o seu trinar, e ocasionalmente até com um som mais estranho – o nosso telefone a tocar.

(continua)

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