Economia Circular nas Indústrias de Base Florestal: da cadeira PPUE à parceria com a Nike Grind

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Decorreu ontem, dia 8 de junho, o webinar “Empresas + Circulares: O contributo das indústrias de base florestal”, organizado pela CIP – Confederação Empresarial de Portugal em conjunto com a AIMMP – Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal, a APCOR – Associação Portuguesa da Cortiça e a CELPA – Associação da Indústria Papeleira, com apoio da EY-Parthenon.

Vitor Poças, presidente da AIMMP, destacou que estamos hoje mais despertos para este tema e que a pandemia deu a oportunidade de acelerarmos a criação de modelos de Economia Circular. De acordo com o responsável, a madeira é a primeira resposta para o desafio da sustentabilidade e “nenhum outro material é tão ecológico para uso em construção, pois nenhum outro encerra em si mesmo um conjunto de características conjuntivas que versem a flexibilidade e a capacidade para renascer, reproduzir, recolher, reutilizar, recuperar, reciclar, reconverter, reaproveitar”.

João Rui Ferreira, presidente da APCOR, destacou que “a sustentabilidade da Economia Circular e a transição dos modelos económicos lineares são hoje claros”, sublinhando que “a fileira florestal tem mais para dar e para mostrar, uma vez que se trata de uma fileira altamente exportadora e com altíssimo valor acrescentado, com impacto profundo na dinamização dos territórios do interior de baixa densidade, gerando emprego e trabalho de qualidade em zonas onde é por vezes difícil o investimento económico e, sobretudo, contribuindo para um país mais sustentável e mais rico do ponto de vista económico e mais justo do ponto de vista social”.

Francisco Gomes da Silva, diretor-geral da CELPA, salientou que “o conceito de circularidade encontra na generalidade das indústrias de base florestal um domínio de excelência para a sua concretização”. Referiu, também, que “dada a natureza dos recursos que utilizamos, as indústrias de pasta de papel e cartão assumem na plenitude a globalidade dos desafios de uma Economia Circular: ao longo dos últimos 10 a 15 anos, as nossas associadas têm feito enormes investimentos muito focados nos ganhos ambientais que se conseguem alcançar através da adoção de tecnologias cada vez mais inovadoras e promotoras de ganhos de circularidade e de eficiência muito significativos”.

O evento incluiu, também, um showcase de boas práticas que contou com empresas de referência em termos de boas práticas e modelos de Economia Circular.

Laura Costa, responsável da Área de Ambiente da The Navigator Company, afirmou que a empresa valoriza os materiais nos seus ciclos produtivos, o que lhe permite ambicionar a neutralidade carbónica em 2035. “O processo de produção de pasta de papel é genuinamente cíclico porque contempla em si próprio a eficiência e o reaproveitamento dos químicos e é nesta lógica de génese da circularidade que temos vindo a desenvolver diversas parcerias” explicou. A utilização das areias de leito fluidizado das caldeiras de biomassa na produção de argamassas e a utilização de cinzas das caldeiras de biomassa e de lamas da ETAR na produção de tecnossolos são alguns exemplos de boas práticas com potencial de replicação.

A responsável apontou ainda as barreiras legais como as principais dificuldades sentidas pela empresa para potenciar a Economia Circular, razão pela qual defende que, entre outras medidas, é importante simplificar os processos de licenciamento, de desclassificação, e tornar mais ágeis os processos de economia circular. Por outro lado, defende a necessidade de criar incentivos para a reutilização dos materiais, substituindo assim matérias-primas virgens.

Nuno Calado, diretor de Sustentabilidade e Floresta da Sonae Arauco, explicou que “a madeira pode ser eternamente reciclada, pelo que se mantivermos a madeira a circular garantimos que o carbono que foi capturado aquando do crescimento da floresta se mantém sempre em circulação e não é libertado”. No que respeita aos principais desafios enfrentados, o responsável ressalvou a “incapacidade de Portugal ter um maior acesso a resíduos de madeira, o que tem um impacto elevadíssimo quer no custo da madeira reciclada quer na perda de competitividade do preço dos nossos produtos comparativamente com os de outros países, como Espanha”. Atualmente, “uma das questões mais relevantes é a taxa da gestão de resíduos sem aterro ter um valor muito baixo, que não é incentivadora de uma Economia Circular”, sublinhou. As “taxas incidentes sobre os movimentos transfronteiriços de resíduos” mostram-se igualmente problemáticas.

Na sua apresentação, Joana Trindade, project manager da Amorim Cork Composites, deu a conhecer as práticas da empresa para aproveitar os subprodutos da extração da cortiça, nomeadamente através da reaglomeração do produto ou da sua conjugação com outros materiais, por forma a garantir a sua maior valorização. Esta conjugação permite reduzir o desperdício de materiais e, simultaneamente, desenvolver produtos inovadores para colmatar as necessidades de mercado em diversas indústrias. Entre a várias iniciativas da empresa, destacou a parceria com a Nike Grind que potencia o aumento da oferta 2 em 1, com produtos projetados para proporcionar conforto e redução de ruído de impacto, ajudando a esconder pequenos defeitos de piso.

Ana Mestre, CEO e fundadora da SusDesign, líder e pioneira na área do ecodesign em Portugal, apresentou o seu projeto de design mobiliário de Economia Circular para a Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia 2021 (PPUE 2021). Inspirado na floresta portuguesa, este projeto tem uma mensagem de sustentabilidade associada. Criadas a partir de biomatérias de vários ecossistemas naturais, as peças de mobiliário criadas não têm apenas uma componente de design visual, mas também outras dimensões sensoriais, por forma a criar novas experiências para os utilizadores. O destaque principal foi dado à a Cadeira PPUE 2021, dados os seus aspetos fortemente diferenciadores.

A apresentação destas boas práticas antecedeu o debate sobre as barreiras à circularidade nas indústrias de base florestal.

Marta Souto Barreiros, responsável pela área de Ambiente e Indústria da CELPA, sublinhou a importância de incrementar a divulgação das matérias-primas secundárias e dos subprodutos, bem como a da sua qualidade e a da sua performance face às matérias-primas virgens. No que respeita à aplicação de fundos europeus, a responsável defendeu que deverá existir um incentivo maior para os projetos verdes, mas com escala, para que as empresas incorporem uma percentagem de matérias-primas secundárias nas suas obras e nos seus produtos.

Outra barreira apontada por Marta Souto Barreiros foi a dinâmica do mercado de subprodutos, defendendo que “a política nacional de gestão de resíduos tem potencial para ser o motor da dinamização deste mercado”.

Joaquim Lima, diretor-geral da APCOR, defendeu que há ainda muito trabalho a fazer para promover a Economia Circular. O responsável realçou a necessidade de replicar iniciativas que promovam a reciclagem de produtos em fim de vida, criando um verdadeiro sistema de recolha de produtos de base florestal, mas também a pertinência de se lançar uma campanha de promoção de produtos de base florestal, junto dos consumidores, com cunho governamental nacional e internacional. Destacou, ainda, a necessidade de trabalharmos em rede, bem como continuar a investir em investigação e em conhecimento científico.

Joana Nunes, diretora do Departamento de Operações e Projetos da AIMMP, destacou a crescente escassez da madeira de pinho em Portugal, o que contribui para o aumento da incorporação de matérias-primas secundárias. A responsável explicou que atualmente se verifica na floresta uma grande concorrência para a aquisição de matéria-prima, pelo que nem sempre é dada a prioridade aos princípios da utilização em cascata. Prolongar o tempo de utilização dos materiais e retirar cada vez menos materiais à Natureza são, de acordo com Joana Nunes, princípios que devem ser transversais a todo o negócio.

De acordo com Ana Cristina Carrola, vogal do Conselho de Administração da APA, “mesmo que a reciclagem pós-consumo e de desperdícios de indústria estivesse a funcionar no seu máximo potencial, teríamos uma diminuição das matérias-primas primárias de aproximadamente 30%”. Para a responsável, “temos de ir mais além: estes 70% têm de ser também conseguidos e isso passa pelo ecodesign, pela diminuição do impacto de fim de vida do produto, potenciando a sua reutilização. O tempo de vida do produto na economia tem de ser a aposta a fazer hoje em dia”, remata.

Para Carla Pinto, representante da DGAE, “os desafios mais importantes no contexto da promoção de uma maior circularidade da nossa economia são a maior eficiência na utilização de recursos e a prevenção da produção de resíduos”. Esta mudança reflete-se “na legislação europeia e nacional, em particular em matérias relacionadas com a gestão de resíduos”. Neste âmbito “foram impostas metas de reciclagem muito exigentes e que vão obrigar a um reajustamento do mercado, no sentido de uma maior utilização de matérias-primas secundárias”, conclui.

Na perspetiva do ICNF, José Manuel Rodrigues destacou que, para alimentar a Economia Circular, é acima de tudo determinante garantir a sustentabilidade dos recursos florestais, a médio e a longo prazo. Assim, o grande desafio consiste em garantir a existência desta matéria-prima que alimenta várias fileiras e vários subsetores, pois esta apresenta um conjunto de vulnerabilidades e riscos naturais (fogos, pragas, doenças, alterações climáticas).

No final do webinar, Pedro Cilínio, do IAPMEI, apresentou ainda os diferentes apoios disponíveis às empresas para a concretização de ações de Economia Circular.

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